Nova abordagem de contratos de relacionamento em terapia de casal 



“[...] A responsabilidade de amar é o verdadeiro papo. 
Você tem de largar a obsessão do amor e 
se virar para o mundo real do amor” 
(BERNE, 1976, p. 205) 



Resumo

A terapia de casal tem como objetivo facilitar que os cônjuges atinjam as duas alternativas positivas do relacionamento: viver bem juntos ou se separar bem. Com a elaboração do diagnóstico e a percepção da situação atual pelos pacientes, podem-se verificar limitações e possibilidades que o tratamento tem a oferecer (o contrato profissional). 
Para evitar o surgimento de jogos psicológicos, além dos contratos iniciais, acrescentamos o (contrato) de ética entre o casal. No decorrer da terapia, verificamos a análise dos contratos conscientes e inconscientes e a atualização dos contratos elaborados no início do relacionamento.

“Em geral, se considera pouco aconselhável o tratamento simultâneo de um casal [...] em nossa linguagem, se ambos os cônjuges estão em tratamento com o mesmo terapeuta, é difícil para ele evitar envolver-se num jogo de três participantes [...].
“O comum é dizer-se ao casal que a terapia destina-se a tratar indivíduos, e não, situações ou relações.” (BERNE, 1972, p. 195). Esse é o parecer de Eric Berne. 
Proponho, então, outro parecer, no qual se podem tratar as relações, focalizando as características do casal e os contratos de relacionamento.
Começarei por definir terapia de casal e as características de um casamento ocidental:

Terapia de casal

Terapia conjunta centrada no relacionamento e nos vínculos do casal, com o objetivo de alcançar a satisfação.

Características de um casamento ocidental

Relação colaborativa em longo prazo 
Voluntária 
Exclusiva 
Orientada para atingir objetivos 
Com etapas com limites de tempo. 
Essas premissas são esperadas, mas nem sempre são seguidas em algumas dessas variáveis. Quando assim acontece, surge a insatisfação, que pode ser sentida como traição e, se essa não for trabalhada, surge a crise.
“Ah! Como começo do relacionamento é gostoso! Você se lembra? Como e onde se conheceram? A impressão que cada um causou ao outro. O primeiro beijo, o começo do namoro. E a primeira relação sexual? Lembra-se também de quando decidiram viver juntos ou casar? Com certeza, sim. São cenas muito difíceis de esquecer.” (LEVI, 1993, p. 17).

Área e papeis






Figura 1 – Gráfico de Pichon Rivière.

É importante não confundir o papel de casal com o papel familiar. Comumente, se ouve no consultório “Estou muito infeliz no meu casamento, mas não posso me separar, porque não quero acabar com a família”. Essa pessoa pode ter outros motivos para não separar: o medo de ficar só, de perder o status, das consequências sociais ou de dividir os bens.
Quando duas pessoas se separam, acaba o contrato legal entre dois adultos, mas o papel de mãe e de pai permanece. Uma separação de casal não acarreta separação familiar, desde que o casal consiga separa-se bem.
Existem quatro alternativas de relacionamento: duas positivas e duas negativas. As duas positivas são:
Viver bem juntos – ocorre quando os vínculos do relacionamento são criados e cultivados, conforme Figura 3 (a seguir), respeitando e atualizando seus contratos; 
Separar-se bem – é ter verificado todas as variáveis e, se a separação não foi decisão de Script.
Decisão do script é desejar o divórcio por motivos OK/noOK, noOK/OK ou noOK/noOK. 
É OK “livrar-se do cônjuge” quando existe comportamento físico destruidor, se ele romper consistentemente os contratos, se houver falta de compromisso com o casamento ou se entrar na loucura.
Outro dado para diagnóstico de separação noOK são os disfarces que surgem após a separação: de culpa, inadequação, confusão. Esses indicam a posição noOK/OK. 
Disfarces de raiva, ciúme, falso triunfo, vingança correspondem à posição OK/noOK.
Sentimentos de desamor, desespero ou abandono indicam a posição noOK/noOK.

“Se a decisão da separação for tomada na posição OK/OK o sentimento é de tristeza”. (KAHLER, 1976)


A separação OK ocorrerá sem manipulações, brigas ou chantagem – nesse caso, é necessário elaborar a despedida e perdoar o outro e a si mesmo, para poder “separar-se da separação”.
As duas alternativas negativas são: 
Separar-se mal ou viver mal juntos. 

O objetivo da terapia de casal é atingir as alternativas positivas de relacionamento: viver bem juntos ou se separar bem.



Os contratos de relacionamento de um casal 

“Contrato é um compromisso explicitado bilateral a um curso de ação bem definido”. 
“O terapeuta deve assegurar-se de que todas as partes envolvidas diretamente entendam claramente tanto as demandas práticas da situação terapêutica (o contrato administrativo), quanto as limitações e possibilidades do que o seu tratamento tem a oferecer (o contrato profissional). Dessa forma, o terapeuta tem menos possibilidade de ser lesado profissional e financeiramente e está mais livre para se dedicar aos aspectos psicológicos do contrato que se tornam parte do empenho terapêutico (o contrato psicológico).” Berne (s/d,. p. 198). [1]
Esses contratos são trabalhados, no início do atendimento, junto com a queixa do casal, o objetivo de cada um na terapia e o que esperam do terapeuta. Além do contrato administrativo, profissional e psicológico, é preciso elaborar o de ética: sigilo do terapeuta com o casal.
O contrato de ética entre o casal é importante para não usar dados da terapia fora do contexto, como no caso de, em uma sessão, o marido dizer: “eu sinto medo de...” e, depois, em uma discussão fora da terapia e a respeito de outro assunto, a mulher o chamar de covarde.
No transcurso do processo, são analisados os contratos conscientes e inconscientes e é feita também a atualização desses, levando em conta a etapa em que se encontram e as necessidades atuais.

Contratos de casal, segundo Berne (1972)

Formal: realiza-se entre dois Adultos e implica respeito e fidelidade, que ambos prometem na cerimônia nupcial.
De relação: é psicológico e existe tendência de que uma parte funcione como um Pai o outro, como Criança (implícito).
De script: consiste no aspecto emocional do casamento e é secreto entre as duas Crianças, mas desconhecido entre os Adultos.


Nossa proposta para contratos de relacionamento

Além do Formal – do casamento civil (comunhão total de bens, parcial ou separação total de bens) ou do religioso (amar e respeitar até que a morte os separe...), o contrato formal é geral para todos os casamentos.

Existe o contrato de cada casal, o quid pro quod “o que cada uma das partes espera dar e receber”, propõem Kaplan e Sager (1972). 
Contrato Consciente-verbalizado: “Quero ter uma vida tranquila, morar no interior e que as crianças possam crescer junto à natureza”.
Consciente não verbalizado: “Quero casar com você porque é uma maneira fácil de sair de casa, pois não aguento meus pais”.
Contrato Inconsciente: é o contrato do Script, plano pré-consciente de vida, baseado em decisões precoces da infância (BERNE, 1988). Esse lado inconsciente é destinado normalmente a resolver situações inacabadas ou a confirmar falsas crenças.
Outra variável a ser analisada é o fato de, no casal, existirem três papeis, a saber:
Assegurado – quando se casa, esse papel está assegurado: nos documentos, se coloca o estado civil casado.
Assumido – o fato de estar casado não significa que o papel tenha sido assumido. Algumas pessoas permanecem numa individualidade total, sem criar ou manter os vínculos do relacionamento, conforme se pode ver na Figura 3, a seguir.
Esperado – é aquilo que cada um espera do relacionamento e do outro. 
Existe um papel esperado individual – o que o cada um acha que tem que ser quando casar. Esse não faz parte do contrato nem é compartilhado com o parceiro(a). Nesse caso, ocorre confusão e insatisfação, pois a pessoa casa e muda sua atuação, sem que o outro saiba o porquê.

Papeis esperados




Figura 2 – O que me atraiu (C) e o que espero (PA).

No exemplo da Figura 2, a pessoa conheceu alguém simpático, despreocupado e livre, características pelas quais sentiu atração e se apaixonou, mas quer que ela se torne séria, responsável e que cuide dela. Essa é uma proposta destinada ao fracasso, pois, qualquer que seja a posição em que a pessoa permanecer, estará errada. Esse é um jogo de encurralar, bastante frequente na vida conjugal (Berne, 1977).
O gráfico dos vínculos do relacionamento facilita a elaboração do diagnóstico, a percepção dos pacientes quanto à situação atual e as limitações e possibilidades que o seu tratamento tem a oferecer (o contrato profissional)

Vínculos do relacionamento


Figura 3 – Vínculos do relacionamento

A atração, o charme e o visual nos aproximam do outro. Esse é o primeiro vínculo. O segundo é a capacidade de estar bem e divertir-se juntos. A cada instante de todo esse processo de reconhecimento, um vínculo é criado. Com uma capacidade mais adulta de análise, estabelecemos o terceiro, em que, além da paixão, passamos a perceber quem é essa pessoa que está ao nosso lado e que tipo de diálogo e comunicação podemos manter com ela.
O tempo vai passando e, no momento em que formamos o quarto vínculo, já temos capacidade de moldar o relacionamento. Esse relacionamento pode ser entre duas pessoas inteiras, que colaboram e contam uma com a outra. 
De outro lado, essa relação pode tomar outro rumo e tornar-se competitiva, invejosa cheia de ciúme, ou ainda transformar-se num relacionamento de dependência, em que um é o eterno desamparado e incapaz e o outro complementa com a responsabilidade de pensar e decidir pelos dois, de proteger ou perseguir. Esse relacionamento assimétrico é chamado simbiótico.
Para conviver, é preciso entrar em contato com conceitos já aprendidos. A nossa escala de valores, a referência que trazemos da nossa influência cultural e da educação, a coincidência parental formará o quinto vínculo.
Os vínculos seguintes, o sexto e o sétimo, são a capacidade de poder proteger e cuidar do outro, tanto quanto somos cuidados e protegidos. Assim, haverá um relacionamento simétrico.


O vínculo em comum do relacionamento é a soma de todos eles, algunsdesses vínculos podem estar fracos, quebrados ou inexistentes.



Em terapia, é possível reverter a situação de alguns vínculos.


Sendo o casamento uma sociedade – que se espera ser de longo prazo, com metas de construir projetos de vida em comum –, é necessário ter confiança mútua, aceitação e respeito.
“Respeito é uma relação entre adultos que se baseia num diálogo direto e aberto. Para tanto, é necessário sentir confiança e preencher contratos que vêm do compromisso, de modo que... 


confiança + compromisso = respeito.” Berne (1976)




No momento em que uma das partes do tripé se rompe, leva junto as outras e, quando isso acontece, o relacionamento começa a desmoronar.

Amor e atração (química de pele) – fatores que a terapia não pode fabricar

A inexistência, e não as dificuldades, do amor e da atração são motivos primordiais e válidos que justificam a separação ou que podem levar a viver mal juntos.
Aponto como dificuldades a capacidade de expressar amor – passível de tratamento em terapia – e a existência de problemas ou disfunções sexuais – passível de ser tratada com terapia sexual.
Terapia sexual: abordagem breve para diagnóstico e tratamento de problemas ou disfunções sexuais masculinas e femininas. 
As disfunções sexuais existem quando há desde um nível menor até o grau total de inibição em alguma das fases da resposta sexual: desejo, excitação e orgasmo. 
Além das causas físicas com suas disfunções, existem problemas sexuais originados a partir de raiva contida pelo parceiro, má informação junto com mensagens recebidas na infância, abuso sexual, estresse, ansiedade, falta de confiança ou medo da intimidade.

Atualização de contratos e desenvolvimento da relação

O relacionamento não é uma estrutura estanque: ele se desenvolve com o tempo e tem etapas a serem cumpridas, cada uma delas com tarefas com limite de tempo e conflitos, semelhantemente à teoria do desenvolvimento Psicossocial, de Erik Erikson, (Rabello e Passos, 2007). 
Da solução de uma etapa, dependerá o comportamento na etapa seguinte e, em cada estágio, o ego passa por um conflito. Quando o conflito não é resolvido, surge a crise. 
Existem também crises circunstanciais, como o surgimento de uma doença, a mudança financeira ou o surgimento de um terceiro elemento na relação. O desfecho da crise pode ser positivo ou negativo. 
Assim como os parceiros mudam as necessidades e as metas, o relacionamento se desenvolve com o transcorrer do tempo e, por esse motivo, é necessário atualizar os contratos de relacionamento.

1ª Etapa: Duelo
Tarefa: separar-se da família original
Conflito: Insegurança sobre a escolha do par e tendência a voltar à família original.
Terapia: despedida da infância, do papel de filho(a), fortalecimento do Adulto e saída da simbiose.

2ª Etapa: Adaptação
Tarefa: assumir o papel de casado.
Conflito: Adaptação à vida a dois, considerar os diferentes costumes.
Se um dos parceiros se sente incapaz de seguir o acordo original ou nunca intentou e quer que o outro mude, surge o conflito.
Terapia: comunicação, concordâncias e discordâncias dos contratos, carícias.

3ª Etapa: Produtividade
Tarefa: filhos, trabalho, social.
Conflito: os parceiros podem ter diferentes pontos de vista sobre cuidados e educação dos filhos, dificuldade na estruturação do tempo.
Terapia: comunicação, estruturação do tempo, jogos psicológicos.

4ª Etapa: 1º Balanço
Tarefa: formada a família, a casa montada, o casal tem mais tempo e espaço para conscientizar-se sobre o relacionamento e os tipos de vínculos.
Conflito: Insatisfação, continuar casado ou separar-se.
Terapia: Analisar e trabalhar os vínculos do relacionamento. Se houver crise, pode surgir um filho com problema para “Salvar o casamento”. Nesse momento, pode ser necessária a terapia familiar.

5ª Etapa: 2º Balanço
Tarefa: balanço do que se conseguiu profissional, individual e socialmente e com a família. Consciência crítica sobre a aparência.
Nessa etapa, são avaliados sucessos e fracassos.
Conflito: insatisfação com as metas e com a qualidade de vida. Nessa fase, pode-se ir em busca de outras pessoas ou interesses que preencham o vazio do casamento. Essa fase é conhecida como “a idade do lobo”.
Conflito a partir do sucesso individual.
Terapia: comunicação, compreensão da diferença entre família ideal e família real e atualização de contratos.

6ª Etapa: Despedida
Tarefa: Despedida dos filhos, da juventude, da atividade profissional com a aposentadoria.
Conflito: crescimentos diferentes (intelectual e emocional) e modos diversos de lidar com as perdas. Esses conflitos podem levar à depressão e ao vazio existencial.
Terapia: trabalhar Script de final aberto, reestruturação do tempo e de fontes de carícias.

Encontrar o amor é uma sorte; conservá-lo é uma arte.



Referências bibliográficas

Berne, E. (1961). Principles of group treatment. New York: Grove Press.
______. (1972). Análise Transacional em Psicoterapia. São Paulo: Summus Editorial, p. 195-198.
______. (1976). Sexo e amor. Rio de Janeiro: J. Olympio, p. 84
______. (1977) Os jogos da vida. Rio de Janeiro: Artenova S.A, p. 88.
______. ( 1988) O que você diz depois de dizer olá? A psicologia do destino. São Paulo Nobel.
Kahler, T. (1976), Separação: uma decisão autônoma ou de Script? Transaccional Analysis Journal, vol. 6.3, jul/1976, p. 300-301.
Levi, M. (1994). Um novo começo – Como superar sem traumas uma separação. São Paulo: Ed. Gente.
Rabello, E. T.; Passos, J. S. (2007). J. Erikson e a teoria psicossocial do desenvolvimento. Disponível em http://www.josesilveira.com. Acesso em 15.10.2007.
SAGER, C.; KAPLAN, H. S. ET. al. (1972) The marriage contrac. In: ______. Progress in group and family therapy. New York: Brummer Mazel, cap. 28.
WATZLAWICK, Paul; BEAVIN, Jackson. (1967). Pragmática da comunicação humana. São Paulo: Cultrix.