Área e papeis
É importante não confundir o papel de casal com o papel familiar. Comumente, se ouve no consultório “Estou muito infeliz no meu casamento, mas não posso me separar, porque não quero acabar com a família”. Essa pessoa pode ter outros motivos para não separar: o medo de ficar só, de perder o status, das consequências sociais ou de dividir os bens.
“Se a decisão da separação for tomada na posição OK/OK
o sentimento é de tristeza”. (KAHLER, 1976)
O objetivo da terapia de casal é atingir as alternativas positivas
de relacionamento: viver bem juntos ou se separar bem.
Papeis esperados
No exemplo da Figura 2, a pessoa conheceu alguém simpático, despreocupado e livre, características pelas quais sentiu atração e se apaixonou, mas quer que ela se torne séria, responsável e que cuide dela. Essa é uma proposta destinada ao fracasso, pois, qualquer que seja a posição em que a pessoa permanecer, estará errada. Esse é um jogo de encurralar, bastante frequente na vida conjugal (Berne, 1977).
Vínculos do relacionamento
Nova abordagem de contratos de relacionamento em terapia de casal
“[...] A responsabilidade de amar é o verdadeiro papo.
Você tem de largar a obsessão do amor e
se virar para o mundo real do amor”
(BERNE, 1976, p. 205)
Resumo
A terapia de casal tem como objetivo facilitar que os cônjuges atinjam as duas alternativas positivas do relacionamento: viver bem juntos ou se separar bem. Com a elaboração do diagnóstico e a percepção da situação atual pelos pacientes, podem-se verificar limitações e possibilidades que o tratamento tem a oferecer (o contrato profissional).
Para evitar o surgimento de jogos psicológicos, além dos contratos iniciais, acrescentamos o (contrato) de ética entre o casal. No decorrer da terapia, verificamos a análise dos contratos conscientes e inconscientes e a atualização dos contratos elaborados no início do relacionamento.
“Em geral, se considera pouco aconselhável o tratamento simultâneo de um casal [...] em nossa linguagem, se ambos os cônjuges estão em tratamento com o mesmo terapeuta, é difícil para ele evitar envolver-se num jogo de três participantes [...].
“O comum é dizer-se ao casal que a terapia destina-se a tratar indivíduos, e não, situações ou relações.” (BERNE, 1972, p. 195). Esse é o parecer de Eric Berne.
Proponho, então, outro parecer, no qual se podem tratar as relações, focalizando as características do casal e os contratos de relacionamento.
Começarei por definir terapia de casal e as características de um casamento ocidental:
Terapia de casal
Terapia conjunta centrada no relacionamento e nos vínculos do casal, com o objetivo de alcançar a satisfação.
Características de um casamento ocidental
Relação colaborativa em longo prazo
Voluntária
Exclusiva
Orientada para atingir objetivos
Com etapas com limites de tempo.
Essas premissas são esperadas, mas nem sempre são seguidas em algumas dessas variáveis. Quando assim acontece, surge a insatisfação, que pode ser sentida como traição e, se essa não for trabalhada, surge a crise.
“Ah! Como começo do relacionamento é gostoso! Você se lembra? Como e onde se conheceram? A impressão que cada um causou ao outro. O primeiro beijo, o começo do namoro. E a primeira relação sexual? Lembra-se também de quando decidiram viver juntos ou casar? Com certeza, sim. São cenas muito difíceis de esquecer.” (LEVI, 1993, p. 17).
Figura 1 – Gráfico de Pichon Rivière.
Quando duas pessoas se separam, acaba o contrato legal entre dois adultos, mas o papel de mãe e de pai permanece. Uma separação de casal não acarreta separação familiar, desde que o casal consiga separa-se bem.
Existem quatro alternativas de relacionamento: duas positivas e duas negativas. As duas positivas são:
Viver bem juntos – ocorre quando os vínculos do relacionamento são criados e cultivados, conforme Figura 3 (a seguir), respeitando e atualizando seus contratos;
Separar-se bem – é ter verificado todas as variáveis e, se a separação não foi decisão de Script.
Decisão do script é desejar o divórcio por motivos OK/noOK, noOK/OK ou noOK/noOK.
É OK “livrar-se do cônjuge” quando existe comportamento físico destruidor, se ele romper consistentemente os contratos, se houver falta de compromisso com o casamento ou se entrar na loucura.
Outro dado para diagnóstico de separação noOK são os disfarces que surgem após a separação: de culpa, inadequação, confusão. Esses indicam a posição noOK/OK.
Disfarces de raiva, ciúme, falso triunfo, vingança correspondem à posição OK/noOK.
Sentimentos de desamor, desespero ou abandono indicam a posição noOK/noOK.
A separação OK ocorrerá sem manipulações, brigas ou chantagem – nesse caso, é necessário elaborar a despedida e perdoar o outro e a si mesmo, para poder “separar-se da separação”.
As duas alternativas negativas são:
Separar-se mal ou viver mal juntos.
Os contratos de relacionamento de um casal
“Contrato é um compromisso explicitado bilateral a um curso de ação bem definido”.
“O terapeuta deve assegurar-se de que todas as partes envolvidas diretamente entendam claramente tanto as demandas práticas da situação terapêutica (o contrato administrativo), quanto
as limitações e possibilidades do que o seu tratamento tem a oferecer (o contrato profissional). Dessa forma, o terapeuta tem menos possibilidade de ser lesado profissional e financeiramente e está mais livre para se dedicar aos aspectos psicológicos do contrato que se tornam parte do empenho terapêutico (o contrato psicológico).” Berne (s/d,. p. 198). [1]
Esses contratos são trabalhados, no início do atendimento, junto com a queixa do casal, o objetivo de cada um na terapia e o que esperam do terapeuta. Além do contrato administrativo, profissional e psicológico, é preciso elaborar o de ética: sigilo do terapeuta com o casal.
O contrato de ética entre o casal é importante para não usar dados da terapia fora do contexto, como no caso de,
em uma sessão, o marido dizer: “eu sinto medo de...” e, depois, em uma discussão fora da terapia e a respeito de outro assunto, a mulher o chamar de covarde.
No transcurso do processo, são analisados os contratos conscientes e inconscientes e é feita também a atualização desses, levando em conta a etapa em que se encontram e as necessidades atuais.
Contratos de casal, segundo Berne (1972)
Formal: realiza-se entre dois Adultos e implica respeito e fidelidade, que ambos prometem na cerimônia nupcial.
De relação: é psicológico e existe tendência de que uma parte funcione como um Pai o outro, como Criança (implícito).
De script: consiste no aspecto emocional do casamento e é secreto entre as duas Crianças, mas desconhecido entre os Adultos.
Nossa proposta para contratos de relacionamento
Além do Formal – do casamento civil (comunhão total de bens, parcial ou separação total de bens) ou do religioso (amar e respeitar até que a morte os separe...), o contrato formal é geral para todos os casamentos.
Existe o contrato de cada casal, o quid pro quod “o que cada uma das partes espera dar e receber”, propõem Kaplan e Sager (1972).
Contrato Consciente-verbalizado: “Quero ter uma vida tranquila, morar no interior e que as crianças possam crescer junto à natureza”.
Consciente não verbalizado: “Quero casar com você porque é uma maneira fácil de sair de casa, pois não aguento meus pais”.
Contrato Inconsciente: é o contrato do Script, plano pré-consciente de vida, baseado em decisões precoces da infância (BERNE, 1988). Esse lado inconsciente é destinado normalmente a resolver situações inacabadas ou a confirmar falsas crenças.
Outra variável a ser analisada é o fato de, no casal, existirem três papeis, a saber:
Assegurado – quando se casa, esse papel está assegurado: nos documentos, se coloca o estado civil
casado.
Assumido – o fato de estar casado não significa que o papel tenha sido assumido. Algumas pessoas permanecem numa individualidade total, sem criar ou manter os vínculos do relacionamento, conforme se pode ver na Figura 3, a seguir.
Esperado – é aquilo que cada um espera do relacionamento e do outro.
Existe um papel esperado individual – o que o cada um acha que tem que ser quando casar. Esse não faz parte do contrato nem é compartilhado com o parceiro(a). Nesse caso, ocorre confusão e insatisfação, pois a pessoa casa e muda sua atuação, sem que o outro saiba o porquê.
Figura 2 – O que me atraiu (C) e o que espero (PA).
O gráfico dos vínculos do relacionamento facilita a elaboração do diagnóstico, a percepção dos pacientes quanto à situação atual e as limitações e possibilidades que o seu tratamento tem a oferecer
(o contrato profissional).
Figura 3 – Vínculos do relacionamento
A atração, o charme e o visual nos aproximam do outro. Esse é o primeiro vínculo. O segundo é a capacidade de
estar bem e
divertir-se juntos. A cada instante de todo esse processo de reconhecimento, um vínculo é criado. Com uma capacidade mais adulta de análise, estabelecemos o terceiro, em que, além da paixão, passamos a perceber quem é essa pessoa que está
ao nosso lado e que tipo de diálogo e comunicação podemos manter com ela.
O tempo vai passando e, no momento em que formamos o quarto vínculo, já temos capacidade de moldar o relacionamento. Esse relacionamento pode ser entre duas pessoas inteiras, que
colaboram e contam uma com a outra.
De outro lado, essa relação pode tomar outro rumo e tornar-se competitiva, invejosa cheia de ciúme, ou ainda transformar-se num relacionamento de dependência, em que um é o eterno desamparado e incapaz e o outro complementa com a responsabilidade de pensar e decidir pelos dois, de proteger ou perseguir. Esse relacionamento assimétrico é chamado simbiótico.
Para conviver, é preciso entrar em contato com conceitos já aprendidos. A nossa escala de valores, a referência que trazemos da nossa influência cultural e da educação, a
coincidência parental formará o quinto vínculo.
Os vínculos seguintes, o sexto e o sétimo, são a capacidade de poder proteger e cuidar do
outro, tanto quanto somos cuidados e protegidos. Assim, haverá um relacionamento simétrico.
O vínculo em comum do relacionamento é a soma de todos eles, algunsdesses vínculos podem estar fracos, quebrados ou inexistentes.
Em terapia, é possível reverter a situação de alguns vínculos.
confiança + compromisso = respeito.” Berne (1976)